CPPN - Centro Paulista de Parto Natural

Uma história real de parto

21 jun

Uma história real de parto

Por Dr. Antonio Julio Sales Barbosa

Ginecologista e Obstetra, especialista em parto natural

 

A terça-feira, de 28 de maio, começou como um dia comum: muitos atendimentos na minha clínica, o Centro Paulista de Parto Natural, onde acompanho o pré-natal de diversas gestantes que desejam mais do que simplesmente dar a luz. Desejam ser protagonistas dos próprios partos.

E nada mais justo, não é mesmo? Afinal, seu corpo, seu parto e como aquele serzinho que ela gera dentro de si própria vem ao mundo são aspectos que devem estar sob o controle dela.

Nunca esperaria eu que, naquele mesmo dia, seria colocado diante de mais uma situação extremamente inusitada e emocionante das que já vivi em meus 35 de carreira.

Estava eu atendendo a última cliente do dia quando o interfone tocou e fui avisado que uma de minhas pacientes estava em trabalho de parto em um carro de aplicativo. Ele me aguardava na garagem do condomínio que abriga minha clínica. “Mas que coisa”, pensei eu. Afinal, nenhuma das minhas pacientes estava com data prevista para parto para aqueles dias. E nenhuma delas havia feito contato prévio comigo, como de costume. “Estranho”, me pareceu.

Terminei a consulta na qual me encontrava e me dirigi à garagem. E foi aí que o show de desencontros começou.

Antes de tudo, aquela não era uma de minhas pacientes, e, minha nossa, o bebê dela já estava coroando! Tentei descobrir quem era a futura mamãe e percebi que ela não era brasileira. “Chilena”, consigo a informação de uma de suas duas amigas, que a acompanhavam (também estrangeiras, uma colombiana e uma peruana, se não me falha a memória).

– “Fez o pré-natal? O bebê está a termo?”

– “Sim”, me responde ela, mencionando ter sido atendida na UBS República, enquanto ouço os batimentos do bebê. Tudo parece ok.

Logo descubro que ela está há 4 meses com o marido em São Paulo, que já andou por alguns Estados do Nordeste e que agora vive em um prédio de ocupação, junto a outros estrangeiros e artistas de rua, no Centro. Sua intenção, me contou ela, era ter o bebê da maneira mais natural possível. Não queria nenhuma intervenção, e para isso, havia escolhido uma conhecida casa de parto em Santo Amaro para ter seu bebê.

– “Mas como, então, chegou até aqui?”, questiono. E para isso, o motorista do carro de aplicativo, onde ela ainda estava deitava, me responde.

– “Ela queria ir para a casa de parto, doutor, mas do jeito que estava eu vi que não ia dar tempo para chegar na zona sul. Ela olhou na internet e achou o senhor, Centro Paulista de Parto Natural, então viemos pra cá, bem mais perto”, disse-me ele.

Só tem um problema. O Centro Paulista de Parto Natural é uma clínica de acompanhamento durante a gestação. Na nossa unidade, realizamos as consultas do pré-natal. Não somos uma casa de parto.

Explico isso a ela, enquanto ouço as sirenes da ambulância do SAMU se aproximando. A parturiente se agita. “Não quero ir para um hospital, por favor, não me levem para hospital!”

Ela havia idealizado seu parto. Seria natural. Sem intervenções. Numa casa de parto. Havia sonhado com isso durante meses.

Mas ela estava no banco traseiro de um carro de aplicativo. No estacionamento da minha clínica. Se apoiando em sua amiga.

Quando o SAMU chegou, precisamos tomar a decisão: faríamos o parto ali ou a transportaríamos para o hospital mais próximo? E por mais que estejamos acostumados a finais que não respeitem o protagonismo da mulher, esse não foi o caso. Os enfermeiros da ambulância deixaram-na decidir o que ela queria fazer, sendo solícitos o tempo inteiro. E ela queria ter seu filho ali. Ela exerceria seu direito.

Eu? Concordei. Avaliei os riscos, vi que seria possível e fiquei feliz por poder auxiliá-la e garantir o mínimo de segurança a ela e ao seu bebê, que agora já pedia para nascer.

Escuto de novo os batimentos. Tudo ok.

– “Respire e siga os instintos do seu corpo!”, peço.

Em poucos minutos, ela dá a luz a um menino, sadio, perfeito, na traseira do carro.

Coloco o bebê no seio da mãe, para o contato pele a pele e aquecimento do mesmo como se preconiza logo após o nascimento. Não corto o cordão. Deixo os dois permanecerem unidos.

E é dessa forma que ela é colocada na ambulância e levada ao hospital, para uma avaliação pós parto e para o bebê ser examinado. A ambulância parte.

Fico na garagem parado, de luvas e avental. Olho para minha mulher, que assistiu a tudo, pois já me aguardava para irmos para casa, e não me contenho em pensar: mas que belo dia para participar de um pequeno milagre!

____

Essa foi uma história real vivida pelo Dr. Antonio Julio Sales Barbosa, em 28 de maio de 2019. No dia seguinte, o doutor encontrou paciente e bebê no hospital, e aproveitou para registrar os momentos e o final feliz.

 

 

One comment

  1. Mas que lindo relato! Parabéns por sua atitude perante a mãezinha! Só provou ser o excelente médico e pessoa que é.

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