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A consulta que é da mãe: por que quase 1 em cada 4 mulheres não vai ao puerpério

A consulta que é da mãe: por que quase 1 em cada 4 mulheres não vai ao puerpério

Você chega em casa com o bebê e o telefone não para. Todo mundo quer saber quanto ele pesou, se está mamando, se dorme, se ganhou peso na consulta do pediatra. Ninguém pergunta como está o seu corpo, se você conseguiu dormir três horas seguidas, se o ponto dói, se aquele choro no fim da tarde é cansaço ou outra coisa.

Existe uma consulta pensada exatamente para isso. Ela se chama consulta de puerpério, é gratuita no SUS e coberta pelos planos de saúde. E cerca de 24% das mulheres não chegam a fazê-la, segundo material técnico do Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz — falta que se concentra justamente entre quem mais precisaria de apoio.

O que é o puerpério (e por que ele é mais longo do que parece)

O puerpério é o período em que o corpo desfaz, aos poucos, as adaptações da gravidez. Dura aproximadamente seis semanas e costuma ser dividido em três fases: imediato (do 1º ao 10º dia), tardio (do 11º ao 45º) e remoto (depois do 45º dia).

Não é um intervalo de espera. É um período de risco real: as complicações mais graves da maternidade se concentram justamente aí, quando a mulher já saiu da maternidade e a atenção de todos migrou para o bebê.

Quando ir: os prazos que valem

Há dois marcos que se complementam, e vale conhecer os dois.

O contato precoce. O material do Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz orienta que a consulta de puerpério aconteça entre o 3º e o 5º dia após o nascimento, de preferência no mesmo dia da consulta do recém-nascido — o que resolve dois problemas com um deslocamento só. Nesse mesmo intervalo, entre o 3º e o 10º dia, está prevista a visita domiciliar de agente comunitário de saúde ou de outro profissional da atenção primária. Para bebês de risco, a visita deve acontecer até o 3º dia.

A consulta de conclusão. O Ministério da Saúde estabelece a consulta puerperal em até 42 dias após o parto, encerrando formalmente o ciclo de assistência obstétrica iniciado no pré-natal.

O que recomenda a OMS. As diretrizes de 2022 da Organização Mundial da Saúde vão na mesma direção e detalham o calendário: cuidado qualificado por pelo menos 24 horas após o nascimento, mais três contatos nas primeiras seis semanas — entre 48 e 72 horas, entre 7 e 14 dias e na sexta semana. Em parto domiciliar, o primeiro contato deve ocorrer o quanto antes, no máximo em 24 horas.

Se você está lendo isso com o bebê de duas semanas no colo e não fez nenhuma dessas consultas, o recado é simples: ligue hoje para a sua UBS ou para o consultório que acompanhou a gestação. Não existe “já passou da hora” dentro das seis semanas.

O que é avaliado nessa consulta

A lista é mais ampla do que a maioria imagina, e não se resume a “ver se está tudo cicatrizando”. Segundo o material técnico da Fiocruz, a avaliação da puérpera inclui:

  • sinais vitais;
  • exame das mamas e dos mamilos, com apoio à amamentação;
  • palpação abdominal e avaliação da involução uterina;
  • avaliação do períneo e da região genital, incluindo cicatrização de laceração, episiotomia ou incisão cirúrgica;
  • avaliação do estado psicológico e emocional, com rastreamento de depressão pós-parto;
  • revisão da situação vacinal;
  • avaliação de risco cardiovascular.

Quando a consulta é conjunta, o recém-nascido também é examinado: crescimento, reflexos, fontanelas, ausculta cardíaca e respiratória, e conferência dos testes de triagem — pezinho, orelhinha, olhinho e coraçãozinho.

Repare no item destacado. O rastreamento de saúde mental faz parte do protocolo — não é um extra que depende de a mãe ter coragem de puxar o assunto. Se ninguém perguntar, puxe você: “não estou me sentindo bem emocionalmente” é uma frase clínica válida e suficiente. A discussão sobre o que acontece com a subjetividade de quem acaba de ter um filho é longa, e portais dedicados à saúde mental, como o PsicoCast, ajudam a entender por que esse período mexe tanto — mas a porta de entrada do cuidado é essa consulta.

Os quatro sinais que não esperam consulta

O documento da Fiocruz destaca quatro quadros potencialmente fatais no pós-parto. Se qualquer um deles aparecer, o caminho não é agendar: é procurar atendimento imediatamente, pelo pronto-socorro ou pelo SAMU (192).

  1. Sangramento súbito e abundante, ou aumento persistente do sangramento, com desmaio, tontura ou palpitações — sinais de hemorragia pós-parto.
  2. Febre, calafrios, dor abdominal ou alterações na ferida operatória — sinais de infecção puerperal.
  3. Dor de cabeça acompanhada de alterações visuais, náusea e vômito — possíveis sinais de pré-eclâmpsia ou eclâmpsia, que podem aparecer depois do parto.
  4. Inchaço, vermelhidão e dor em apenas uma das panturrilhas, ou dor no peito e falta de ar — possíveis sinais de tromboembolismo.

Guarde esta lista em algum lugar acessível, e mostre para quem estiver ajudando em casa. Em muitos relatos, quem percebeu que algo estava errado foi a irmã, o marido, a mãe — não a puérpera, exausta demais para avaliar o próprio estado.

Por que tanta gente falta

As razões são bem concretas: não ter com quem deixar o bebê, não ter transporte, não conseguir marcar, dor, exaustão, e a ideia difundida de que a consulta é do bebê. Some a isso o fato de que a atenção primária e a maternidade nem sempre conversam entre si, e a mulher sai da alta sem saber que aquela consulta existe.

Algumas coisas simples aumentam a chance de a consulta acontecer:

  • Marque antes de sair da maternidade, ou peça que anotem na alta a orientação de procurar a UBS.
  • Vá acompanhada. Alguém segura o bebê enquanto você é examinada e enquanto conversa.
  • Peça a consulta conjunta, sua e do bebê, no mesmo dia.
  • Leve a caderneta da gestante, o cartão de vacina e o resumo de alta.
  • Anote as dúvidas no celular ao longo da semana. Na hora, o cansaço apaga tudo.
  • Pergunte sobre contracepção. É assunto dessa consulta, e a fertilidade pode retornar antes da primeira menstruação.

Amamentar não impede engravidar de novo, dor persistente não é obrigação da maternidade, e tristeza que não passa depois de duas semanas merece avaliação. A consulta de puerpério existe para dizer isso a você antes que alguém pergunte, mais uma vez, quanto o bebê pesou.

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Perguntas frequentes

A consulta de puerpério é a mesma coisa que a consulta de revisão de 40 dias?
É o nome técnico dela. O Ministério da Saúde estabelece a consulta puerperal em até 42 dias após o parto, que é a popular “revisão dos 40 dias”. A diferença é que hoje se recomenda também um contato bem mais precoce, entre o 3º e o 5º dia, além da visita domiciliar na primeira semana.
Preciso ir mesmo se estou me sentindo bem?
Sim. Boa parte do que é avaliado — pressão, involução uterina, cicatrização, risco cardiovascular, saúde mental e situação vacinal — não dá sintoma perceptível no começo. A consulta também é o momento de tratar de amamentação e contracepção.
Fiz cesárea. Muda alguma coisa?
Os prazos são os mesmos, e a avaliação inclui a inspeção da ferida operatória. Qualquer alteração nela — vermelhidão, secreção, abertura, dor crescente — associada a febre ou calafrios exige avaliação imediata, sem esperar a data marcada.
Onde faço essa consulta pelo SUS?
Na Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua casa, que é também de onde parte a visita domiciliar da equipe de saúde da família. Leve a caderneta da gestante e o resumo de alta da maternidade.
Posso levar o bebê junto?
Pode, e é o recomendado: o material técnico da Fiocruz orienta que a consulta da mãe e a do recém-nascido sejam coordenadas para o mesmo dia. Ainda assim, vá acompanhada de um adulto — durante o exame você vai precisar de alguém para segurar o bebê.

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