Agosto é o mês em que a amamentação vira assunto em todo lugar. O nome Agosto Dourado foi instituído no Brasil pela Lei Federal nº 13.345, de 12 de abril de 2017, e a cor foi escolhida porque o dourado simboliza o padrão ouro de qualidade do leite humano.
Mas tem uma parte da campanha que costuma passar batida por quem está vivendo a maternidade pela primeira vez: se você produz mais leite do que seu bebê consome, esse excedente pode alimentar um recém-nascido que está numa UTI neonatal e não pode ser amamentado pela própria mãe.
Este guia explica como funciona a doação, na prática.
Quem pode doar
A doação é voluntária e pode ser feita por mulheres que estão amamentando e cuja produção de leite excede a necessidade do próprio bebê.
A regra de ouro é essa e não muda: primeiro o seu bebê, depois a doação. Nenhum banco de leite quer que você tire do seu filho para doar. O que se doa é o que sobra.
Além disso, o banco de leite faz um cadastro e avalia condições de saúde e uso de medicamentos, porque algumas situações contraindicam a doação. Essa conversa acontece no momento do cadastro, e é ali que suas dúvidas específicas serão respondidas por quem pode avaliar o seu caso.
O que acontece com o leite doado
Os bancos de leite humano atuam diariamente na coleta, pasteurização e distribuição do leite doado por mães saudáveis. O destino são recém-nascidos que, por diferentes razões, não podem ser amamentados pelas próprias mães, principalmente prematuros internados em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.
Para dar noção de escala, só no primeiro semestre de 2026 o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, o IFF da Fiocruz, coletou 925,6 litros de leite humano, uma média de 154,26 litros por mês. E esse é um instituto dentro de uma rede que tem alcance nacional.
O Brasil coordena essa estrutura pela Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, sob coordenação do IFF/Fiocruz, reconhecida internacionalmente e apoiada por um centro colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde.
O passo a passo da coleta em casa
A ordenha domiciliar segue um roteiro de higiene que existe para proteger o bebê que vai receber o leite. Confirme os detalhes com o banco de leite que atende sua região, porque pode haver orientação local específica, mas a estrutura é esta:
- Prepare o frasco. Use vidro com tampa plástica, do tipo maionese ou café solúvel, previamente fervido conforme a orientação do banco de leite. O frasco precisa estar completamente seco antes do uso.
- Escolha um lugar tranquilo. Ambiente limpo, longe de animais, com bancada higienizada.
- Prenda o cabelo e use máscara. A proteção evita que fio de cabelo, saliva ou gotícula respiratória caiam no leite.
- Lave bem as mãos e os antebraços. Água e sabão, com atenção às unhas.
- Lave as mamas apenas com água. Sabonete na aréola resseca e não é necessário.
- Despreze os primeiros jatos. Eles ajudam a limpar o canal.
- Ordenhe massageando a mama em movimentos circulares, do início da aréola em direção ao corpo, com o frasco posicionado logo abaixo.
- Feche, identifique e congele imediatamente. Anote a data da coleta no frasco e leve ao congelador ou freezer.
- Chame a coleta. Boa parte dos bancos de leite oferece coleta domiciliar. Ligue e combine.
Você pode ir completando o mesmo frasco em coletas diferentes ao longo do dia, sempre voltando o vidro para o congelador entre uma e outra, respeitando o prazo que o serviço da sua região orientar.
Por que pedem frasco de vidro
Esta é a parte que quase ninguém sabe e que resolve um gargalo real.
O IFF/Fiocruz mantém uma campanha permanente de arrecadação de frascos de vidro com tampa plástica, do tipo usado para maionese e café solúvel. Os recipientes armazenam o leite doado e são indispensáveis para as etapas de coleta, processamento e distribuição.
Ou seja: o banco de leite pode ter doadoras e mesmo assim ficar sem capacidade de operar se faltar frasco. Quem não está amamentando, ou já passou dessa fase, também pode contribuir, e a contribuição é literalmente o vidro que iria para o lixo.
Se você tem vidros em casa, lave, tire o rótulo e a cola, e ligue para o banco de leite mais próximo perguntando como entregar.
O que a campanha diz neste ano
O Agosto Dourado contempla a Semana Mundial do Aleitamento Materno, realizada anualmente entre 1º e 7 de agosto em mais de 120 países. A campanha global foi criada em 1992 pela Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno, a WABA, em conjunto com a OMS e o Unicef.
O tema oficial da 35ª edição é "Amamentação para um começo de vida sustentável: fortalecer o que funciona". O foco definido pela WABA em 2026 é avaliar o impacto da amamentação na nutrição, na segurança alimentar e na redução da pobreza, fortalecendo as redes de apoio em toda a sociedade.
O IFF/Fiocruz reforça as recomendações já consolidadas: início da amamentação ainda na primeira hora de vida, aleitamento exclusivo até os seis meses, sem necessidade de oferecer água ou outros alimentos, e continuidade após a introdução de outros alimentos saudáveis até os dois anos de idade ou mais.
Uma palavra para quem está no começo
Se você está lendo isso com um bebê no colo e a sensação de que amamentar já é difícil o bastante sem acrescentar mais uma tarefa, tudo bem. Doar não é obrigação e não é medida de amor materno.
A proposta aqui é outra: se acontecer de sobrar, agora você sabe que existe um destino para esse leite, que existe uma rede pronta para buscá-lo e que ele vai para um bebê que precisa muito.
E se estiver difícil no sentido oposto, com dor, fissura ou dúvida sobre produção, o banco de leite também é lugar de buscar ajuda. A rede oferece orientação especializada a gestantes e lactantes, e não só recebe doação. Procurar é gratuito e não exige que você doe nada.