Sexta-feira, 15 de agosto, foi o Dia da Gestante, e a Sociedade Brasileira de Diabetes aproveitou a data para chamar atenção para uma condição que muita gente só descobre existir quando o obstetra pede o exame: o diabetes mellitus gestacional.
Se você está grávida pela primeira vez e recebeu um pedido de exame com nome comprido, ou se ainda vai receber, aqui vai o que costuma gerar mais dúvida, em formato de perguntas e respostas.
O que é, exatamente
É uma alteração na tolerância aos carboidratos que começa durante a gestação e que não preenche os critérios de diabetes fora da gravidez. Segundo o Ministério da Saúde, é uma condição que ocorre temporariamente durante a gravidez, com a glicose no sangue elevada, porém ainda abaixo dos valores que caracterizariam o diabetes tipo 2.
A explicação de por que isso acontece é, na verdade, bastante elegante. Durante a gestação, a placenta produz hormônios que reduzem a ação da insulina, o hormônio responsável por levar a glicose para dentro das células. O pâncreas percebe isso e aumenta a produção de insulina para compensar. Na maioria das mulheres, a compensação funciona. Em algumas, não, e a glicose sobe.
Ou seja: não é falha de comportamento nem descuido alimentar. É um ajuste fisiológico que, em parte das gestações, não fecha a conta.
Uma distinção importante, feita pela dra. Patricia Dualib, endocrinologista e coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD: "É importante alertar que mulheres diabéticas (Tipo 1 ou Tipo 2) que engravidam não são consideradas portadoras de diabetes gestacional, que só aparece somente após iniciada a gravidez".
Por que os números variam tanto por aí
Se você pesquisar, vai encontrar percentuais muito diferentes, e isso costuma assustar. Vale entender a razão.
O Ministério da Saúde informa que o diabetes gestacional afeta entre 2 e 4% das gestantes. A Sociedade Brasileira de Diabetes estima a prevalência no Brasil em 18%, e registra que a condição afeta de 3 a 25% das gestações dependendo do grupo étnico e, principalmente, do critério diagnóstico utilizado.
A diferença não é erro de ninguém. É consequência de qual régua se usa para dizer que um valor está alterado. Critérios mais sensíveis capturam mais casos, incluindo os mais leves. Critérios mais restritivos capturam menos.
Para efeito de comparação internacional, a prevalência varia de 9,5% na África a 26,6% no Sudeste Asiático, e a Federação Internacional de Diabetes calcula que a condição atinja cerca de 15% das gestações no mundo, o que representa em torno de 18 milhões de nascimentos por ano. É uma das complicações médicas mais comuns da gravidez.
A diretriz da SBD acrescenta um dado que ajuda a dimensionar: estima-se que aproximadamente 16% dos nascidos vivos são gerados por mulheres que tiveram alguma forma de hiperglicemia durante a gravidez, sendo que cerca de 8% desses casos são de mulheres que já tinham diabetes diagnosticado antes de engravidar.
Quando os exames são feitos
São dois momentos, e eles têm objetivos diferentes.
Na primeira consulta do pré-natal. A diretriz da SBD recomenda solicitar glicemia plasmática de jejum para gestantes sem diagnóstico prévio conhecido de diabetes. O objetivo aqui é duplo: identificar mulheres que já tinham diabetes sem saber, e detectar casos de diabetes gestacional de início precoce. Pesquisar isso logo no começo permite reduzir riscos e alertar para a necessidade de acompanhamento em quem desconhecia o diagnóstico.
A solicitação adicional de hemoglobina glicada pode ser considerada nessa mesma consulta. Um valor igual ou acima de 6,5% no primeiro trimestre já classifica a gestante como tendo diabetes diagnosticado na gestação, categoria diferente do diabetes gestacional. Já valores entre 5,7% e 6,4% no primeiro trimestre funcionam como fator de risco importante, não como diagnóstico.
A partir da 24ª semana. É aqui que entra o exame mais conhecido. A recomendação da SBD é que todas as gestantes pesquisem a glicemia de jejum no início da gestação e, a partir da 24ª semana, ou seja, do início do sexto mês, verifiquem tanto a glicose em jejum quanto, mais importante ainda, a glicemia após estímulo com ingestão de glicose. É o chamado teste oral de tolerância à glicose, feito com 75 gramas de glicose.
O Ministério da Saúde é direto sobre a abrangência: toda gestante deve fazer o exame de diabetes, regularmente, durante o pré-natal.
Quem tem mais risco
A lista de fatores de risco reunida pela SBD inclui: história familiar de diabetes em parentes de primeiro grau; alteração de glicose em exames anteriores à gravidez; excesso de peso antes ou durante a gestação; gravidez anterior com bebê nascido acima de 4 kg; histórico de abortamento espontâneo sem causa esclarecida; hipertensão arterial; pré-eclâmpsia ou eclâmpsia em gestação atual ou anterior; síndrome dos ovários policísticos; uso de corticoides; presença de condições associadas à resistência à insulina; e hemoglobina glicada igual ou acima de 5,7% no primeiro trimestre.
A incidência vem aumentando junto com o crescimento da obesidade na população feminina, em paralelo ao aumento do diabetes tipo 2.
Agora, o ponto que mais importa para quem está lendo isso: ter fator de risco não significa que você vai desenvolver a condição, e não ter nenhum não dispensa o exame. Como a própria SBD registra, o diabetes gestacional pode ocorrer em qualquer mulher e nem sempre os sintomas são identificáveis. É exatamente por isso que o rastreamento é para todas, e não só para as de maior risco.
O que muda se o resultado vier alterado
A primeira coisa a saber é que a base do tratamento não é medicação.
Segundo a SBD, o tratamento se apoia em alimentação saudável, atividade física e controle das glicemias capilares. As refeições devem ser fracionadas ao longo do dia, com as gorduras dando lugar a frutas, verduras, legumes e alimentos integrais. Havendo liberação do obstetra, exercícios físicos moderados também entram na rotina.
As metas de glicose informadas pela sociedade são de menos de 95 mg/dL em jejum e menos de 140 mg/dL uma hora após a refeição. Se, apesar de todos esses cuidados, os níveis continuarem altos, o médico pode indicar insulina para manter a glicose na faixa desejada.
Essa decisão é sempre do profissional que acompanha você. Nada aqui substitui a consulta, e ajuste de conduta não se faz por texto na internet.
Por que o controle importa
Quando o quadro não é controlado, as consequências aparecem dos dois lados.
Para a gestante, as complicações obstétricas variam de parto prematuro a pré-eclâmpsia. Para o bebê, o mecanismo é o seguinte: o excesso de glicose no sangue materno atravessa a placenta e chega ao feto, cujo pâncreas passa a produzir grande quantidade de insulina na tentativa de controlar a hiperglicemia. Como a insulina estimula crescimento e ganho de peso, o feto cresce excessivamente e costuma nascer com mais de 4 kg, o que frequentemente leva a parto por cesariana. O bebê pode ainda apresentar hipoglicemia e desconforto respiratório ao nascer.
Há também um horizonte mais longo. Mulheres que tiveram diagnóstico de diabetes gestacional têm maior risco de progredir para diabetes tipo 2, e seus filhos, maior chance de obesidade e diabetes tipo 2 ao longo da vida. O Ministério da Saúde registra o mesmo ponto: a condição implica risco aumentado de desenvolvimento posterior de diabetes tanto para a mãe quanto para o bebê.
Por isso existe uma etapa que muita gente pula. Normalmente o quadro se resolve logo após o parto, mas é importante que mulheres que tiveram glicemias altas na gravidez façam um novo teste de sobrecarga de glicose seis semanas depois do nascimento do bebê. Anote isso agora, porque nas primeiras semanas com o bebê em casa a chance de esquecer é enorme.
O que levar dessa leitura
Duas frases resumem bem.
A primeira é da dra. Patricia Dualib: "O pré-natal é essencial para a mãe e para o bebê. Nas consultas, o obstetra pode detectar a doença e iniciar o tratamento".
A segunda é uma tradução prática: o exame não depende de você se sentir mal, porque na maior parte dos casos não há sintoma nenhum. Se veio no pedido, faça. Se o resultado alterar, na imensa maioria das vezes o caminho começa com comida, movimento e acompanhamento, e não com remédio.
E se a ansiedade bater ao ler qualquer coisa sobre risco na gravidez, o que é absolutamente esperado, leve isso para a consulta também. Faz parte.